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Os males das raposinhas

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   O livro de Cantares, atribuído ao Rei Salomão, é de um conteúdo poético e simbólico exuberante. Seu conteúdo de paz e amor emprega uma variada linguagem figurada para expressar verdades eternas e de aplicação espiritual. Os simbolismos encontrados em Cantares formam um extenso leque, contendo muitas lições para o dia a dia da vida cristã. Em João 15. 1-8, nosso Salvador emprega uma figura de linguagem semelhante a do rei de Israel à videira Divina.

Simbolismo dos "pequenos pecados"


     Quando Moisés comissionou doze espias para trazerem um relatório estratégico para conquista da Terra Prometida, dez destes desanimaram completamente o povo em vencer e tomar posse da benção. Por causa da incredulidade, eles enxergaram-se como gafanhotos diante dos gigantes, filhos de Anaque (Números 13.3). Centenas de anos se passaram e o perigo não são mais os gigantes em nossa terra, mas as raposinhas, que fazem mal às nossas vinhas (Cantares 2. 15).
     As raposinhas representam uma extensa gama de pecados, comumente representados na expressão “Isto não faz mal”, mas que na verdade fazem. As nossas vinhas estão infectadas de descrença, resistência e dureza de coração. E mais, como pecados ocultos (Salmos 19. 12), muitos cristãos armazenam no coração sentimentos de ira, rancores, ciúmes, adultérios e algo mais que somente quem os têm é que os conhece.


                                   Simbolismo individual


      Cada florzinha da vinha bem pode ser comparada à individualidade de cada seguidor de Cristo. O Senhor mesmo nos apresenta esta lição, dizendo: “Eu Sou a videira verdadeira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto...” (João 15.15). Comunhão e frutificação em Cristo é responsabilidade pessoal de cada um. Ninguém está pegado à vinha para observar o comportamento das flores ao seu redor e copiar suas maneiras de agir; “De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”. (Romanos 14.12).
      Um exemplo correto da responsabilidade cristã pessoal é visto no diálogo de Jesus com seus apóstolos quando o traidor foi anunciado. Pela função e as características de Judas, os demais logo poderiam imaginar quem seria. Mas seus pensamentos não se dirigiam ao faltoso companheiro, e sim a uma interrogação pessoal (Marcos 14.18,19).

Simbolismo comunitário


      A vinha representa também uma comunidade espiritual ou em outras palavras, a Igreja de Cristo. Como a videira é formada por ramos, folhas, flores e frutos, a Igreja do Senhor, apresenta semelhante visão. Seu paradigma é “Um por todos e todos por um”. Paulo disse: “De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. Ora vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” (I Coríntios 12.26,27).
      A vinha em flor significa que está sadia e forte, absorvendo todos os nutrientes necessários à sua frutificação e que, por extensão, produz alegria ao proprietário. Espiritualmente, na videira de Cristo, ramo que floresce e frutifica tem um cuidado todo especial do seu Senhor; o ramo infrutífero, ao contrário, é cortado e condenado tão somente pelo pecado de não dar fruto (João 15.2,6). 
                                             Simbolismo de liderança


      A vinha de Salomão estava sob cuidados e administração dos servos do rei. Eram eles, não o rei, os responsáveis pelo lucro ou prejuízo do vinhedo. As flores eram frágeis e indefesas. Alguém deveria  protegê-las das raposinhas. Os animaizinhos deveriam ser apanhados (não enxotados) e mortos, pois soltos poderiam retornar ou ir para outras vinhas. (Compare com a ilustração de Jesus em Mateus 12. 43-35).
      Os últimos tempos estão sendo caracterizados por raposas e raposinhas danificando a vinha do Senhor, estando nós pastores responsabilizados pela sua proteção (Atos 20. 28-31, I Pedro 5. 8). É mister que atentemos às palavras de Paulo: “Examinai tudo. Retende o bem” (I Tessalonicenses 5.21). Segundo meu entendimento, nos últimos tempos tenho observado no nosso meio algo estranho aos nosso princípios.
      Certo dia, em um bate-papo com determinado irmão, ele entusiasticamente relatava as bênçãos recebidas durante um culto de vigília no monte. Na ocasião, foram vistas folhas de árvores chamejantes espalhadas pelo chão e que irmãos as pegavam para levarem-nas para casa. É fogo estranho. Ouvi de outros que um colega enfermo recebeu oração com os cabelos de uma jovem consagrada colocados sobre a cabeça dele. Outros há que colocam as mãos sobre o local da enfermidade (no caso de mulheres, as mãos colocadas são de uma irmã). Tudo isto sob o conhecimento e consentimento dos líderes. Quanta falta de convicção teológica!
       Em algumas igrejas  está em moda a prática de convidar testemunhas para estarem ao lado dos pais do bebê em cerimônias de consagrações, mesmo não sendo crentes. Mas há que se alegar: Testemunhas de quê? Pessoalmente, entendo que tais testemunhas fazem o mesmo papel de padrinhos, como sinônimos. Nossa liderança precisa vigiar e apanhar estas e outras raposinhas para que nossa identidade denominacional não seja prejudicada.
     Geralmente, nem sempre o erro é permitido por maldade, mas por ignorância do perigo que representa. A entrada das raposinhas necessita ser barrada diligentemente antes que elas cresçam, se tornem raposas e façam estragos nos frutos também.


                             Prejuízos causados pelas raposinhas


      Note-se que Salomão menciona a época em que as raposinhas aparecem: “Porque as nossas vinhas estão em flor”. Ora, destruindo-se as flores não há colheita dos frutos. O inimigo das nossas almas não chega adiantado e nem atrasado; seu agir é matematicamente calculado (Mateus 4. 1-3). A trajetória do pecado é semelhante à das raposinhas. O pecado tem seu início, seu crescimento e sua consumação (Tiago 1. 13-15). As raposinhas devem ser apanhadas enquanto não crescem.
      Alguns adágios nos ensinam a livrarmos-nos do mal, como por exemplos: ”Antes que o mal cresça, corta-se a cabeça” e “Cortar o mal pela raiz”. O salmista Coré faz uma advertência sobre o mesmo assunto, dizendo: “Um abismo chama outro abismo” (Salmos 42. 7). As raposinhas no coração de Sansão aniquilaram sua força e causaram seu fracasso.
      Vigiemos e sejamos sóbrios para que as raposinhas destes últimos tempos não danifiquem as nossas flores de alegria, de paz, de amor e, acima de tudo, de nossa comunhão com Deus.