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Carta aberta aos pastores e à Igreja: é preciso cuidar de quem cuida

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Por Iaskara Tavares

A notícia do suicídio cometido por dois pastores brasileiros nesta última semana tem despertado a atenção do povo e suscitado nossas emoções. Muitos se perguntam “Como que “homens de Deus” podem tirar a própria vida?”, mas a questão é: o suicídio nunca acontece por acaso. Geralmente ele nasce sob a forma de solidão, frustração, rejeição, traição, pressão... A lista pode ser longa. Esse emaranhado de sentimentos negativos não ‘tratados’ começam a configurar uma depressão ou a Síndrome de ‘Burnout’ e quando menos se espera o suicídio tornou-se inevitável.
O ministério ExPastores, que atende pastores, ex-pastores e outros líderes cristãos realizou entre setembro de 2016 e março de 2017, uma pesquisa online com 577 líderes cristãos. A análise do estudo concluiu que 86% dos entrevistados sentem que não são capazes de cumprir todas as exigências de sua função, outros 77% sentem que “exigências irrealistas” são esperadas deles e de suas famílias. Segundo os dados, quando questionados se eles já pensaram em desistir do ministério, 85% dos entrevistados disseram que sim e 64% já duvidaram de seu chamado para o pastorado. Além disso, 58% confessaram que se sentiram feridos e rejeitados pela igreja quando foram convidados a sair ou decidiram sair de seu cargo. Mais de metade dos entrevistados (62%) disseram que lidam com a solidão, 65% sofrem com ansiedade, 39% têm depressão e 29% já lidaram com pensamentos suicidas.
Mais dados alarmantes como estes se encontram em um compilado de estudos do Instituto Fuller, Instituto de Pesquisas George Barna e do site Pastoral Care Inc.: 90% dos pastores americanos disseram que o ministério é completamente diferente do que eles pensavam que seria, 70% dizem que sofrem de baixa autoestima, 40% relatam ter conflitos com membros da igreja pelo menos uma vez por mês, 85% disseram que seu maior problema é que eles estão cansados de lidar com pessoas problemáticas e/ou descontentes, como presbíteros, diáconos, equipes de louvor, outros líderes e pastores auxiliares. Além disso, 40% afirmam que pensaram em deixar seus pastorados nos últimos três meses, 70% não têm alguém que consideram um amigo próximo, 50% acreditam que seu ministério não vai durar mais 5 anos, 50% dos pastores sentem-se tão desanimados que deixariam o ministério se pudessem, mas não têm outra maneira de ganhar a vida e 45,5% dos pastores dizem que estão deprimidos ou tiveram um ‘burnout’ e, se pudessem, tirariam uma licença médica por algum tempo.
Essas notícias e informações nos convidam a refletirmos sobre a Síndrome de Burnout que têm alcançado os ministros de Deus e adoecido suas mentes. A Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional. Burnout é geralmente desenvolvida como resultado de um período de esforço excessivo no trabalho com intervalos muito pequenos para recuperação e é marcada pela falta de reconhecimento deste profissional.
Trabalhadores da área da saúde são os mais propensos à síndrome pois lidam diariamente com pessoas em sofrimento, ou seja, exercem o trabalho de cuidadores. Considerando isto, acredito que os pastores e líderes religiosos podem se enquadrar nessa categoria, uma vez que lidam intensivamente com o *CUIDAR* do rebanho. Esse cuidado engloba visitas aos doentes (desde alguém com gripe até alguém com câncer e Aids), auxílio financeiro à famílias que passam por necessidade, assistência a enlutados, assistência à casais em litigio, apoio aos que estão deprimidos e ansiosos, apoio a jovens drogados, famílias vítimas de violência, ser um resolutor de conflitos, etc. Enfim, o pastor deste mundo pós-moderno, além de lidar com essas e outras questões e de preparar os sermões semanais ainda tem de desenvolver diversas habilidades, especialmente na área administrativa.
A atual conjuntura tem exigido do pastor tomadas de decisões que, em outras épocas não eram cogitadas. Diante de tantos desafios e rearranjos ministeriais, o desejo de ser sempre melhor, de ter altos desempenhos e o desejo de valorização pessoal faz com que a vida de cuidador (pastor) se torne uma obstinação e compulsão, levando a um desgaste emocional e físico muito intenso. O estresse e o cortisol conseguem nebular a função cerebral, desequilibrando todo o funcionamento do corpo/mente ao ponto de ‘matar aos poucos’ e ninguém perceber.
Os principais sintomas da Síndrome de Burnout:
Físicos: Exaustão (esgotamento físico temporário), fadiga (capacidade física ou mental decrescente), dores de cabeça, dores generalizadas, alterações digestivas, do sono e sexuais, alergias, dores musculares ou cervicais, gastrite, úlceras, diarreia, palpitações, hipertensão. Na mulher, suspensão do ciclo menstrual; no homem, a impotência. E baixo libido em mulheres e homens.
Psicológicos: depressão, irritabilidade, ansiedade, inflexibilidade, perda de interesse, descrédito na instituição e nas pessoas.
Comportamentais: Evita os irmãos e o contato social, usa críticas, reclamações, adjetivos depreciativos, resiste à mudanças, transfere responsabilidades, descuida de si mesmo, do lazer, faz auto medicação e pode começar a fazer uso de bebidas alcoólicas, ou estimulantes, apresenta comportamentos de fuga (celular, internet, jogos, pornografia, etc.) e recusa ajuda.

 

O que fazer?
Estar em agonia e sofrimento psíquico não é sinônimo de pecado e nem motivo de escândalo e vergonha. Pastor não é semideus. Pastor não é categoria de anjo. Pastor é um ser humano, sujeito à todos os problemas que seres humanos têm.
No auge do sofrimento de Jesus, bem ali no Getsêmani, enquanto seu suor transformava-se em grandes gotas de sangue que desciam até o chão, o próprio Deus Pai viu que Jesus precisava de ajuda. Sim, quando Jesus orou ao Pai pedindo que afastasse o cálice da sua ira, Deus respondeu-o enviando um anjo para o confortar! Jesus, o Bom Pastor, estava em profundo sofrimento psíquico e altamente sobrecarregado, Ele recorreu à oração, mas Deus sabia que a estrutura humana de Jesus não podia suportar o peso daquele momento sozinho, e se Jesus não pôde, não sinta-se culpado por também não conseguir.
“Então lhe apareceu um anjo do céu, que o confortava.” (Lucas 22. 43)
Querido amigo pastor, valorize sua saúde mental, física e espiritual. Tire férias sempre que possível (recarregue suas energias longe do ambiente de trabalho e priorize a privacidade com sua família – ela também sofre), invista em atividades que lhe proporcionem prazer (ter um hobby e se divertir não é pecado), evite o sedentarismo (a atividade física ativa substâncias que estimulam a circulação sanguínea, causando bem estar físico e mental e minimizando os riscos de problemas cardiovasculares, obesidade, etc.) e direcione seu ministério para uma visão qualitativa e não apenas quantitativa (uma vida apenas de ativismo em busca de ‘números’ acaba por sacrificar sua saúde, da sua família e até da igreja). Aprenda a cuidar bem do seu corpo e mente e assim, terá muitos anos para cuidar com eficiência na obra do Senhor.
Querido irmão, seja o ‘anjo’ de seu pastor. É preciso cuidar de quem cuida!

Procure ajuda com um pastor ou profissional de confiança:
SARA – Servindo de Apoio, Refrigério e Amizade
Augusto Betzch (46)991244026/ (46)999714570
augusto@sara.org.br